"Quando nóis fiquemo sabendo, nem fiquemo acreditando. Mas a
família confirmô." Quando Gilsicleide dos Santos fala, com o corpo
apoiado no batente da porta, suas frases soam como versos do sambista
paulistano Adoniran Barbosa. Mas, na guarda da entrada de seu barraco,
um dos últimos a cair na demolição de parte da favela Real Parque, sua
voz não apresentava melodia. No intervalo das marretadas, o único som
que se ouvia vinha dos passos apressados pelas vielas. Em um fluxo
calado, moradores sem camisa carregavam colchões e estrados de cama na
contramão de funcionários com marreta na mão, uniforme e capacete,
contratados para derrubar mais uma favela no centro financeiro da Zona
Sul de São Paulo. O ar estava carregado de pó e o entulho dos barracos
já demolidos se misturava a cadernos de escola, sofás rasgados e sapatos
sem sola. Crianças desbravavam as ruínas de quartos e cozinhas, mas nem
elas faziam barulho. Habituada a discussões de vizinhos por causa dos
raps ou funks no último volume, a favela de onde Gilsicleide resistia em
sair estava, enfim, em silêncio.
Essa é a segunda vez que a história de Gilsicleide remete à "Saudosa
Maloca", não só na ausência de plurais da narrativa, mas em seu
conteúdo. Em 2005, ela já havia assistido à demolição de sua casa na
favela do Jardim Edite. Foi quando recebeu a notícia com espanto, aquela
em que só acreditou quando a família da vítima confirmou: um de seus
vizinhos havia morrido debaixo dos entulhos. Seu Mané, como era
conhecido, era carroceiro e tentava tirar um pedaço de latão dos restos
de um barraco quando uma parede caiu sobre ele. A empreiteira pagou pelo
caixão.
"Ele estava bêbado", é a explicação dada ao caso por Elisabete
França, superintendente de habitação popular da Secretaria Municipal de
Habitação, logo depois de garantir que nunca um morador saíra ferido das
ações de remoção. A prefeitura contrata a consultoria Ductor para
fiscalizar as normas de segurança. A empresa não deve ter notado que,
nos últimos dias do prazo para a saída do Real Parque, uma família com
três crianças ainda morava no 2º andar de um sobrado que tinha sua
estrutura abalada pela derrubada das paredes do primeiro andar.
Na visão da prefeitura de São Paulo, descaracterizar a fachada das
casas vazias é o procedimento para impedir que outras pessoas reocupem o
lugar para exigir a compensação financeira. Mas nem sempre o
funcionário contratado para fazer o serviço tem o cuidado necessário com
as famílias que ainda estão lá. Em um caso específico, um funcionário
excedeu na marreta e pegou um quarto ainda habitado por um casal.
Em
outro, os moradores tiveram de tomar a marreta das mãos do operário.
"Ele estava no andar de cima de um sobrado e batia com tanta força que
as paredes do térreo começaram a rachar", diz o vizinho, que correu para
evitar a briga. "Tive que pegar a marreta da mão dele e fazer eu mesmo:
bati de leve no entorno da janela. Eles fazem de propósito para
intimidar quem não saiu." Ainda dentro de sua casa, que também estava
com as paredes rachadas e já não tinha água ou luz, esse morador estava
decidido a ficar até o último dia da remoção.
Remoção, aliás, é uma palavra banida pela prefeitura paulistana.
"Quem acha que a gente faz remoção é um ignorante de pai e mãe. A gente
não desaloja ninguém. A gente constrói para eles", diz o secretário da
habitação Ricardo Pereira Leite. Ele afirma que, de todas as famílias
que moram nas favelas em processo de urbanização, 90% ficam na mesma
casa, que é reformada. "Só saem quando estão em área de risco. Nós
ajudamos as pessoas. Remover, nunca. Essa palavra está proibida." Qual
seria, então, o termo adequado para o momento em que as famílias têm de
sair de seus barracos? "Eu chamo de upgrade", ele responde. "Eu chamo de
ganhar na loteria", completa Elisabete.
Se a visão da Secretaria sobre o assunto for precisa, pode-se dizer
que as famílias que ocupavam 17 barracos da favela do Sapo (localizada
na Zona Oeste de São Paulo, entre as pontes do Limão e da Freguesia do
Ó) ganharam na Mega-Sena acumulada. Em 10 de fevereiro, as moradias
foram derrubadas com o suporte de um verdadeiro aparato de guerra:
tratores e integrantes da Guarda Civil Metropolitana e da Tropa de
Choque da Polícia Militar. Segundo o vereador Carlos Néder (PT), a ação
ocorreu sob o pretexto de respeito ao meio ambiente. Como a favela se
localiza às margens de um córrego que deságua no rio Tietê, a remoção
seria uma exigência do programa Córrego Limpo, conduzido pela Sabesp,
que pretende reverter a degradação desses cursos de água.
Mas, de acordo com relatos, a estratégia de choque e terror não ficou
a cargo das forças policiais presentes no local. Durante toda a semana
que antecedeu a derrubada dos barracos, um funcionário a serviço da
Secretaria, Francisco Evandro Ferreira Figueiredo, visitou a favela,
armado e coagindo os moradores.
Evandro é terceirizado da empresa BST
Transportes, que foi contratada pela prefeitura, fato confirmado por
Elisabete. Era ele quem coordenava as ações naquela quinta-feira de
fevereiro, agindo com truculência contra quem contestasse a derrubada
das moradias, como um autêntico jagunço.
Evandro não foi localizado pela reportagem para comentar o caso. Mas,
segundo Néder, a própria Elisabete França explicou, durante uma reunião
para discutir a situação realizada na sede da Secretaria, qual era sua
função exata no despejo.
"Segundo Elisabete França, Evandro foi
contratado para derrubar as casas, para tirar as pessoas da favela",
atesta o vereador. "Ela falou isso na frente de dezenas de testemunhas. É
um absurdo que a municipalidade use a violência, a intimidação e a
truculência como uma praxe administrativa", completa.
Ao fim da operação, que foi interrompida devido à pressão popular, os
entulhos dos barracos demolidos acabaram empilhados dentro do córrego,
em pleno auge da temporada de chuvas na capital paulistana.
Aquela não era a primeira vez que moradores da favela do Sapo viam
suas casas se tornarem escombros. Já em 2009, a urbanista Raquel Rolnik,
relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o direito
à moradia adequada, constatou o medo e a desorientação dos moradores do
local após uma rodada de remoções. Ela chegou a manifestar sua
preocupação em uma carta enviada a Elisabete França. "Pelo que pude
verificar durante minha visita, as maiores vítimas do conflito que ali
se instaurou são mulheres e crianças. De forma geral, a população
pareceu-me bastante assustada por desconhecer os projetos exatos da
prefeitura para aquele local, assim como por desconhecer os planos para
sua remoção", escreveu ela em 23 de agosto de 2009.
Na resposta, a
Superintendência de Habitação Popular declarou reconhecer a importância
da denúncia, mas também afirmou que, com "a divulgação da notícia de
intervenção na área (...), a favela sofreu uma invasão que fugiu dos
padrões". No entender do órgão, o interesse desses novos moradores era
"furar a fila das prioridades estabelecidas nos programas da prefeitura
de São Paulo".
A lógica faz algum sentido, porque, a rigor, as famílias não são
exatamente despejadas - como aconteceu com Mato Grosso e Joca,
personagens da canção de Adoniran Barbosa. Não chega a ser um bilhete
premiado, mas eles saem com direito a R$ 300 ou R$ 400 mensais para
alugar outra moradia enquanto a prefeitura constrói o prédio definitivo.
A promessa é que, quando ficar pronto, as famílias terão direito a
financiar um apartamento no local. Para a Superintendência de Habitação
Popular, foi visando o benefício que muitas famílias instalaram seus
barracos na favela do Sapo. No entanto, a própria Secretaria assume que
esses valores são insuficientes. O destino certo para as pessoas que
dispõem dessa verba, numa cidade cara como São Paulo, será outra favela.
Quando saiu do Jardim Edite, Gilsicleide dos Santos e seu marido não
acreditaram na promessa do apartamento financiado. Abriram mão da oferta
para receber R$ 8 mil pelo barraco. Eles não se arrependem, já que,
seis anos depois, a construção ainda não começou.
Foi a prefeitura que fez a mudança da família dela do Jardim Edite
para o Real Parque, em 2005. Em 2010, quando a assistente social bateu a
sua porta para dizer que aquela era uma área de risco, ela disse: "De
novo, fia? Até quando vou ficar com vocês me mandando de um lado para o
outro?" Em fevereiro, o caminhão da prefeitura levou seus pertences para
a favela de Paraisópolis, onde Gilsicleide aluga atualmente um quarto e
cozinha com o valor do aluguel social.
O périplo da família pelas favelas da Zona Sul, financiado pela
prefeitura de São Paulo, é um espelho dos descaminhos da política de
planejamento urbano da capital mais rica do país. A secretaria gasta,
por mês, R$ 4,5 milhões com o aluguel para famílias que aguardam a
construção de prédios. Existem, hoje, 15 mil famílias recebendo esse
benefício na cidade. São Paulo tem 800 mil famílias morando em favelas e
assentamentos precários, o equivalente a um terço da população da
capital.
De acordo com Raquel Rolnik, a política habitacional levada a cabo
pela prefeitura é "uma máquina de produzir novas precariedades". "São
Paulo está vivendo em função do desenvolvimento", ela avalia.
Megaeventos como a Copa do Mundo e grandes obras de infraestrutura, como
o Rodoanel, são responsáveis por remoções e despejos realizados sem
nenhum respeito. "Às vezes, as famílias acabam em bairros piores, a 30,
40 quilômetros de suas moradias originais, quando o correto é que a
condição nova seja sempre melhor", critica.
Seguindo o rastro dessas grandes intervenções urbanas, é possível
cravar no mapa da cidade onde estão os maiores conflitos por habitação.
E, para Raquel, em grande parte dos casos, essas regiões coincidem com
as áreas de maior valor no mercado imobiliário.
O caso do Jardim Edite é emblemático nesse sentido. A pressão da
especulação imobiliária é uma das principais forças enfrentadas pelos
moradores da área. Na esquina das avenidas Jornalista Roberto Marinho e
Engenheiro Luís Carlos Berrini, centro financeiro da cidade, a favela
era vizinha do hotel Hilton (onde ficou hospedado o ex-presidente
norte-americano George W. Bush, em 2007) e da central de jornalismo da
TV Globo.
Segundo a urbanista Mariana Fix, que acompanha o caso desde o
início, o metro quadrado da região valia US$ 100 há 30 anos. Hoje, o
valor chega a até US$ 4 mil. Em seu livro Parceiros da Exclusão, ela
afirma que os investimentos na ponte estaiada Jornalista Octávio Frias
de Oliveira (vista obrigatória a partir dos escombros dos barracos do
Edite) e na retirada da favela seguem mais a lógica de estímulo ao
mercado imobiliário do que uma real demanda da cidade de São Paulo.
Desde quando começou a negociar a saída dos moradores e a construção
dos prédios no mesmo local, o líder da associação dos moradores,
Gerôncio Henrique Neto, recebeu propostas de imobiliárias para que
abrisse mão da militância pelo terreno. "Eu não quis nem ouvir o que
tinham a oferecer. Meu compromisso é com os moradores", diz ele. Nas
negociações com a prefeitura para a remoção, diferentes valores foram
oferecidos. "Em 2001, era R$ 3 mil pelo barraco ou rua. Subiu para R$ 5
mil para quem quisesse voltar para seu estado de origem. Depois,
ofereceram um apartamento na periferia ou R$ 8 mil. Eu não aceitei. A
lei diz que temos direito a um apartamento no mesmo lugar onde moramos."
A briga dele, agora, é para garantir que o projeto não sofra
alterações por causa da pressão imobiliária. No projeto original, havia
dois terrenos. Em um deles, estão os prédios para moradia popular; no
outro, uma área de lazer, uma escola e o posto de saúde. Recentemente, o
projeto foi adaptado para caber em apenas um terreno, onde a área de
lazer foi colocada no teto da escola e do posto de saúde. Segundo
Gerôncio, a alteração foi feita sem um acordo prévio com os moradores.
Elisabete admite que a mudança realmente ocorreu. "Outros proprietários
desse segundo terreno ganharam o direito de receber pela desapropriação e
isso encareceria muito os valores do projeto", ela explica.
O Real Parque fica a cerca de 1 quilômetro do Jardim Edite, só que do
outro lado do Rio Pinheiros. Entre eles está a ponte Jornalista Octávio
Frias de Oliveira, construída com o dinheiro da Operação Urbana Água
Espraiada, a mesma que financia a urbanização do Jardim Edite. O
projeto, que prevê construção de três prédios com 240 apartamentos, uma
escola e um posto de saúde, custou R$ 43 milhões. A ponte custou R$ 260
milhões. Inaugurada em 2008, virou o novo cartão-postal da cidade e, de
quebra, serve como cenário de fundo para os telejornais da TV Globo.
A ponte só não serve para o filho de Gilsicleide ir para a escola.
Depois que a família fez a primeira mudança, o menino de 13 anos passou a
fazer longas caminhadas para estudar, pois o colégio ficou do outro
lado do rio.
Embora cravada entre as duas favelas, a ponte foi feita
apenas para carros e motos.
Impedido de fazer o caminho reto de 1
quilômetro, ele tinha de voltar mais de 1 quilômetro até a ponte
vizinha, atravessá-la, e caminhar a mesma distância do outro lado. Agora
que a família está em Paraisópolis, são 8 quilômetros para chegar à
escola. O jeito é passar por baixo da catraca do ônibus.
Em 2010, se o problema já parecia distante de qualquer solução
definitiva, um fator veio literalmente incinerar a possibilidade de
diálogo. Enquanto em 2008 e 2009 o número de ocorrências de incêndios em
favelas era inferior a 80, de janeiro a setembro do ano passado, a
cifra pulou para 95. E, em 2011, o corpo de bombeiros já registra 99
casos. Muitos acontecem em áreas que passam por litígio ou urbanização.

A remoção dos moradores do Real Parque foi precipitada pelo fogo que
queimou 354 casas em setembro passado. Os focos se alastraram pela área
onde já havia negociação para remoção dos moradores. "Essa é a história
do Real Parque", diz um mestre de obras que mora no local há mais de 30
anos e não quis se identificar. "Aqui tem projeto de urbanização desde
86, mas eles só conseguem tirar os moradores depois que acontece um
incêndio." O primeiro foi logo antes do então prefeito, Paulo Maluf,
começar a construir os prédios do Projeto Cingapura, em 1992. "Foi uma
boa ajuda para convencer o pessoal que não estava querendo sair, né?"
Depois, em 2007, outro incêndio ocorreu em um terreno que estava em
litígio com o proprietário. As pessoas que perderam suas casas foram
para um alojamento provisório. O mesmo lugar em que, depois de
tentativas de negociar a saída dos moradores, houve o incêndio de
setembro do ano passado.
"Ninguém pode provar nada. Mas quem está aqui
há muitos anos, como eu, desconfia."
O modo como o fogo começou e foi combatido levantou ainda mais
suspeitas. O primeiro foco foi de madrugada e os próprios moradores o
controlaram. Às 9h20, o fogo voltou, em um ponto distante do inicial.
"Foi criminoso, temos certeza", diz uma moradora que perdeu a casa. Ela
afirma que os bombeiros demoraram mais de uma hora para comparecer e,
quando chegaram, estavam com pouca água. Outros moradores relatam que as
mangueiras estavam furadas e as pessoas tiveram de trazer roupas para
tentar conter os vazamentos. Alguns dizem ainda que os bombeiros não
tentaram conter o fogo, apenas controlaram para que ele não se
alastrasse além daquela área. O corpo de bombeiros não respondeu ao
pedido de entrevista.

Na noite do incêndio, os moradores não tinham onde ficar. Alguns
conseguiram pouso nas casas de parentes e vizinhos. Para os que ficaram
na rua, o socorro veio do tráfico. Foram os gerentes do tráfico de
drogas local que deram a ordem: os moradores com garagem em casa
deveriam tirar os carros para receber as famílias desabrigadas. Por duas
semanas, o tráfico distribuiu comida em quentinhas para as famílias
desabrigadas e leite achocolatado para as crianças.
Mas, algumas semanas depois, veio a conta. Ao perceber que a
devastação do fogo serviria para a prefeitura começar as obras de
urbanização, o tráfico começou a fazer ameaças. Eles seriam contra a
construção dos prédios, pois, com a regularização das ruas e a entrada
de funcionários públicos e polícia, poderiam perder o ponto com
localização privilegiada. Espalhou-se a ameaça de que as famílias que
pegassem o aluguel teriam o mesmo destino de uma jovem dependente de
crack que tentara roubar algumas casas durante o incêndio - ela foi
espancada até a morte. A ameaça se estendeu aos líderes locais que
negociavam o projeto de urbanização com a prefeitura. O resultado foi o
esvaziamento do conselho que representa a comunidade nas reuniões com a
Secretaria de Habitação.
Apesar de não reconhecer o aumento de casos de incêndio em
assentamentos precários, a prefeitura determinou a criação da Câmara
Executiva de Prevenção e Combate a Incêndios em Favelas, justamente para
evitar que o problema se alastre. A iniciativa será desenvolvida em 50
comunidades e envolverá 21 subprefeituras.
Em um domingo ensolarado de abril, na região sudeste da capital,
dezenas de moradores se reuniram na favela da Paz, localizada nas
imediações do Parque Bristol, próximo ao Jardim Zoológico. O tema da
reunião era a nova pintura dos barracos ao longo da principal rua da
comunidade. As fachadas da via pareciam obra de pichadores nada
familiarizados com a evolução da arte urbana nos últimos anos. Em várias
delas, lia-se a inscrição "AI", em spray preto sobre alvenaria, seguida
de um número. Logo acima, a assinatura que delatava a autoria das
pinturas: PMSP - Prefeitura Municipal de São Paulo. Foi assim, com
pichações sem qualquer aviso prévio, que os moradores da área souberam
que suas casas seriam derrubadas. "AI" significa Auto de Interdição. E
os pichadores eram funcionários da própria prefeitura.

Rumores sobre a chegada daquele dia pairavam sobre a comunidade havia
anos. Neuza Leocádia estava em casa quando ele bateu à sua porta. Junto
com a nova fachada, ela recebeu os documentos referentes à interdição
de sua residência e um chamado para comparecer à Secretaria. "Eu estava
quieta, mas vieram pichar meu barraco...", diz ela. Agora, vai ser
difícil que ela volte a ficar calada. Moradora da Vila da Paz desde
1991, ela integra o comitê da comunidade que dialogará com a prefeitura
paulistana.
Neuza e vários líderes de movimentos de moradia coordenam o encontro
na rua. Contando com um sistema de som, eles atraem os passantes e
combinam a estratégia para lidar com a ameaça de remoção. A principal
ação é negar qualquer oferta de dinheiro por parte das autoridades.
Quando alguns moradores disseram ter recebido R$ 1.200, a multidão
exclamou em coro: "Devolve! Devolve o cheque-despejo!".
O motivo alegado pela prefeitura para a derrubada das casas é o fato
de elas terem sido incluídas num mapeamento de áreas de risco feito em
2010, em parceria com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas. O órgão
identificou 407 regiões da cidade ameaçadas por deslizamentos ou
enchentes. E a Zona Sul lidera o ranking, com 176 comunidades na lista.
Alguns moradores não reconhecem a ameaça. "Isso aqui não é área de
risco. Eu pago água, luz e telefone. Minha casa nunca encheu", diz um
deles. Neuza, que mora ao lado de um córrego, reconhece que, quando
chove forte, a água sobe bastante. A discordância dela tem muito mais a
ver com a questionável estratégia da prefeitura na abordagem do
problema.
Para Dito Barbosa, líder da União dos Movimentos de Moradia, o que
está ocorrendo pode ser definido como bullying social. "Estão
criminalizando a pobreza", afirma. "Até o laudo do IPT, tudo foi feito
de forma legal. Mas, daí pra frente, é tudo ilegal, as pichações, a
intimidação... Se existe risco, qual o plano de reassentamento? Não se
pode aproveitar essa situação pra fazer limpeza social."
Segundo Barbosa, a falta de transparência e debate tem a ver com o
que ele chama de "militarização das subprefeituras". "A maioria desses
órgãos é controlada por coronéis de postura extremamente conservadora.
Essa é a coisa mais grave da repressão aos movimentos sociais", diz.
E alfineta: "Se a prefeitura defende o programa Cidade Limpa, por que picha a casa das pessoas?"